A Surata 2, chamada Al-Baqarah (« A Vaca »), é a mais longa do Alcorão.
Ela constitui um texto fundamental para a organização religiosa, jurídica e comunitária dos crentes.
Revelada majoritariamente em Medina, desenvolve temas centrais como a fé, a Lei, a aliança, a oração, o jejum e a relação com as tradições judaicas e cristãs.
O primeiro versículo desta segunda surata não contém afirmação, narrativa nem mandamento. Ele consiste simplesmente em três letras do alfabeto árabe pronunciadas separadamente: Alif, Lām, Mīm. Essas letras não formam palavra nem frase, e as traduções do Corão as conservam tal como estão, pois não podem ser realmente traduzidas de outra forma.
Essa abertura surpreende ainda mais porque se encontra no limiar da surata mais longa do Corão. Antes de qualquer exortação moral ou afirmação doutrinária, o texto começa com uma sequência cuja função não é explicada. O leitor entra assim na surata por meio de um sinal que precede o próprio discurso.
Esse limiar singular, no entanto, prepara o que vem a seguir. Já no versículo seguinte, a surata afirma: « Este é o Livro: nele não há dúvida » (S. 2,2). A proclamação da certeza vem, portanto, imediatamente depois de uma abertura que, por si mesma, permanece totalmente obscura.
Essas letras pertencem a um fenômeno mais amplo dentro do Corão. Vinte e nove suratas começam com sequências desse tipo, que a tradição islâmica chama al-ḥurūf al-muqaṭṭaʿa, isto é, as « letras separadas » ou « letras isoladas ». Sua presença, portanto, não se limita a um caso isolado, mas constitui um motivo recorrente na estrutura do texto corânico.
Essas sequências assumem formas diversas. Algumas suratas começam com uma única letra, como Nūn (S. 68,1); outras com duas, como Ṭā-Hā (S. 20,1); enquanto algumas apresentam três, quatro ou cinco, como Kāf-Hā-Yāʾ-ʿAyn-Ṣād (S. 19,1). A diversidade das combinações mostra que não se trata de uma fórmula única repetida mecanicamente.
Apesar dessa variedade, o texto nunca fornece uma explicação direta. As letras aparecem no início de uma surata e o discurso corânico continua sem qualquer comentário adicional. O leitor encontra assim um elemento recorrente cuja função permanece implícita no próprio texto.
Muito cedo, os comentadores muçulmanos procuraram explicar essas letras. Alguns pensaram que se tratava de iniciais ou abreviações que remetiam a nomes divinos ou a fórmulas conhecidas. Uma tradição relatada por al-Ṭabarī atribui, por exemplo, a Ibn ʿAbbās a seguinte interpretação: Alif-Lām-Mīm significaria anā Allāh aʿlam, isto é: « Eu, Allah, sei »1.
Outros exegetas recusaram fixar uma explicação precisa. Segundo eles, essas letras têm de fato um significado, mas esse significado é conhecido apenas por Allah e permanece inacessível ao ser humano. Essa posição permaneceu muito influente justamente porque preserva o mistério sem pretender resolvê-lo.
Na prática religiosa, essas letras são recitadas como o restante do Corão. Sua presença não é, portanto, apenas um problema de interpretação, mas também um elemento da oração. Um hadith relatado por al-Tirmidhī afirma, com efeito, que cada letra do Livro traz uma recompensa espiritual, mesmo quando o sentido não é compreendido2.
Pesquisadores modernos também propuseram diversas hipóteses. Alguns orientalistas sugeriram que poderia tratar-se de antigas marcas de escribas, sinais de transmissão ou anotações ligadas à história manuscrita do texto3. Outros propuseram leituras litúrgicas, simbólicas ou até criptográficas.
No entanto, nenhuma dessas hipóteses acabou por se impor. As propostas são numerosas, às vezes engenhosas, mas nenhuma permite chegar a uma conclusão segura. Após séculos de estudo, essas letras permanecem sem uma explicação unanimemente reconhecida, nem na tradição muçulmana nem na pesquisa crítica.
Essa constatação merece ser notada. A exegese corânica é uma das tradições interpretativas mais vastas e sofisticadas da história religiosa. Contudo, já no primeiro versículo da surata mais longa do Corão, ela se depara com um limiar que não consegue atravessar plenamente.
Uma primeira tensão aparece dentro do próprio Corão. O texto corânico afirma em vários lugares ser claro, explícito e dado para ser compreendido. Lê-se, por exemplo: « Estes são os versículos de um Livro claro » (S. 12,1), e depois: « Nós o fizemos descer como um Corão árabe para que compreendais » (S. 12,2).
No entanto, aqui o texto começa com uma sequência cujo significado permanece desconhecido. Durante séculos, ninguém conseguiu oferecer uma explicação certa e reconhecida por todos. Surge então uma verdadeira questão: como um Livro que se apresenta como claro pode começar por algo que nem o próprio texto nem a tradição realmente explicam?
A dificuldade ultrapassa o caso de Alif-Lām-Mīm. Ela toca a própria natureza da revelação corânica. Uma palavra divina deve ser imediatamente inteligível, ou pode exigir adesão antes mesmo de ter revelado o seu sentido?
A Bíblia também reconhece que Deus ultrapassa a compreensão humana. O profeta Isaías transmite esta palavra divina: « Meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e os vossos caminhos não são os meus caminhos »4. Do mesmo modo, São Paulo exclama: « Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e do conhecimento de Deus! Como são insondáveis os seus juízos e inescrutáveis os seus caminhos! »5.
Na tradição bíblica também a letra pode desempenhar um papel estruturante na expressão da revelação. Alguns salmos são construídos segundo a ordem do alfabeto hebraico: cada versículo ou cada estrofe começa com uma letra diferente. O Salmo 118 [119], por exemplo, está organizado em vinte e duas secções correspondentes às vinte e duas letras do alfabeto6.
Mas a Bíblia insiste ao mesmo tempo na necessidade de compreender a palavra revelada. Quando o eunuco etíope lê Isaías, Filipe pergunta-lhe: « Compreendes o que estás a ler? »7. O mistério, portanto, não elimina a inteligência; pelo contrário, chama uma palavra que se abre e se deixa interpretar.
Essas três letras levantam, afinal, uma questão mais ampla do que o seu próprio enigma. Elas obrigam a interrogar a relação entre revelação, mistério e compreensão. Aqui, a confiança parece preceder a explicação, e a submissão ao texto precede a inteligência do que ele diz.
A tradição cristã também conhece o mistério da Palavra divina. Mas ela o exprime de outra maneira, pois a Palavra de Deus não é antes de tudo uma sequência de letras nem sequer um livro: é uma Pessoa: « O Verbo fez-se carne »8.
Assim, o mistério já não permanece apenas um sinal a recitar ou um enigma a contemplar. Ele torna-se um encontro, uma presença, um rosto. A questão permanece aberta: a palavra divina foi feita para permanecer fechada, ou para revelar-se plenamente numa pessoa?
O primeiro versículo desta segunda surata não contém afirmação, narrativa nem mandamento. Ele consiste simplesmente em três letras do alfabeto árabe pronunciadas separadamente: Alif, Lām, Mīm. Essas letras não formam palavra nem frase, e as traduções do Corão as conservam tal como estão, pois não podem ser realmente traduzidas de outra forma.
Essa abertura surpreende ainda mais porque se encontra no limiar da surata mais longa do Corão. Antes de qualquer exortação moral ou afirmação doutrinária, o texto começa com uma sequência cuja função não é explicada. O leitor entra assim na surata por meio de um sinal que precede o próprio discurso.
Esse limiar singular, no entanto, prepara o que vem a seguir. Já no versículo seguinte, a surata afirma: « Este é o Livro: nele não há dúvida » (S. 2,2). A proclamação da certeza vem, portanto, imediatamente depois de uma abertura que, por si mesma, permanece totalmente obscura.
Essas letras pertencem a um fenômeno mais amplo dentro do Corão. Vinte e nove suratas começam com sequências desse tipo, que a tradição islâmica chama al-ḥurūf al-muqaṭṭaʿa, isto é, as « letras separadas » ou « letras isoladas ». Sua presença, portanto, não se limita a um caso isolado, mas constitui um motivo recorrente na estrutura do texto corânico.
Essas sequências assumem formas diversas. Algumas suratas começam com uma única letra, como Nūn (S. 68,1); outras com duas, como Ṭā-Hā (S. 20,1); enquanto algumas apresentam três, quatro ou cinco, como Kāf-Hā-Yāʾ-ʿAyn-Ṣād (S. 19,1). A diversidade das combinações mostra que não se trata de uma fórmula única repetida mecanicamente.
Apesar dessa variedade, o texto nunca fornece uma explicação direta. As letras aparecem no início de uma surata e o discurso corânico continua sem qualquer comentário adicional. O leitor encontra assim um elemento recorrente cuja função permanece implícita no próprio texto.
Muito cedo, os comentadores muçulmanos procuraram explicar essas letras. Alguns pensaram que se tratava de iniciais ou abreviações que remetiam a nomes divinos ou a fórmulas conhecidas. Uma tradição relatada por al-Ṭabarī atribui, por exemplo, a Ibn ʿAbbās a seguinte interpretação: Alif-Lām-Mīm significaria anā Allāh aʿlam, isto é: « Eu, Allah, sei »1.
Outros exegetas recusaram fixar uma explicação precisa. Segundo eles, essas letras têm de fato um significado, mas esse significado é conhecido apenas por Allah e permanece inacessível ao ser humano. Essa posição permaneceu muito influente justamente porque preserva o mistério sem pretender resolvê-lo.
Na prática religiosa, essas letras são recitadas como o restante do Corão. Sua presença não é, portanto, apenas um problema de interpretação, mas também um elemento da oração. Um hadith relatado por al-Tirmidhī afirma, com efeito, que cada letra do Livro traz uma recompensa espiritual, mesmo quando o sentido não é compreendido2.
Pesquisadores modernos também propuseram diversas hipóteses. Alguns orientalistas sugeriram que poderia tratar-se de antigas marcas de escribas, sinais de transmissão ou anotações ligadas à história manuscrita do texto3. Outros propuseram leituras litúrgicas, simbólicas ou até criptográficas.
No entanto, nenhuma dessas hipóteses acabou por se impor. As propostas são numerosas, às vezes engenhosas, mas nenhuma permite chegar a uma conclusão segura. Após séculos de estudo, essas letras permanecem sem uma explicação unanimemente reconhecida, nem na tradição muçulmana nem na pesquisa crítica.
Essa constatação merece ser notada. A exegese corânica é uma das tradições interpretativas mais vastas e sofisticadas da história religiosa. Contudo, já no primeiro versículo da surata mais longa do Corão, ela se depara com um limiar que não consegue atravessar plenamente.
Uma primeira tensão aparece dentro do próprio Corão. O texto corânico afirma em vários lugares ser claro, explícito e dado para ser compreendido. Lê-se, por exemplo: « Estes são os versículos de um Livro claro » (S. 12,1), e depois: « Nós o fizemos descer como um Corão árabe para que compreendais » (S. 12,2).
No entanto, aqui o texto começa com uma sequência cujo significado permanece desconhecido. Durante séculos, ninguém conseguiu oferecer uma explicação certa e reconhecida por todos. Surge então uma verdadeira questão: como um Livro que se apresenta como claro pode começar por algo que nem o próprio texto nem a tradição realmente explicam?
A dificuldade ultrapassa o caso de Alif-Lām-Mīm. Ela toca a própria natureza da revelação corânica. Uma palavra divina deve ser imediatamente inteligível, ou pode exigir adesão antes mesmo de ter revelado o seu sentido?
A Bíblia também reconhece que Deus ultrapassa a compreensão humana. O profeta Isaías transmite esta palavra divina: « Meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e os vossos caminhos não são os meus caminhos »4. Do mesmo modo, São Paulo exclama: « Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e do conhecimento de Deus! Como são insondáveis os seus juízos e inescrutáveis os seus caminhos! »5.
Na tradição bíblica também a letra pode desempenhar um papel estruturante na expressão da revelação. Alguns salmos são construídos segundo a ordem do alfabeto hebraico: cada versículo ou cada estrofe começa com uma letra diferente. O Salmo 118 [119], por exemplo, está organizado em vinte e duas secções correspondentes às vinte e duas letras do alfabeto6.
Mas a Bíblia insiste ao mesmo tempo na necessidade de compreender a palavra revelada. Quando o eunuco etíope lê Isaías, Filipe pergunta-lhe: « Compreendes o que estás a ler? »7. O mistério, portanto, não elimina a inteligência; pelo contrário, chama uma palavra que se abre e se deixa interpretar.
Essas três letras levantam, afinal, uma questão mais ampla do que o seu próprio enigma. Elas obrigam a interrogar a relação entre revelação, mistério e compreensão. Aqui, a confiança parece preceder a explicação, e a submissão ao texto precede a inteligência do que ele diz.
A tradição cristã também conhece o mistério da Palavra divina. Mas ela o exprime de outra maneira, pois a Palavra de Deus não é antes de tudo uma sequência de letras nem sequer um livro: é uma Pessoa: « O Verbo fez-se carne »8.
Assim, o mistério já não permanece apenas um sinal a recitar ou um enigma a contemplar. Ele torna-se um encontro, uma presença, um rosto. A questão permanece aberta: a palavra divina foi feita para permanecer fechada, ou para revelar-se plenamente numa pessoa?
1 Al-Ṭabarī, Jāmiʿ al-bayān : « Ibn ʿAbbās disse: Alif-Lām-Mīm significa: eu sou Allah, o Sabedor. » — Exemplo de interpretação antiga das letras isoladas.
2 Al-Tirmidhī, Sunan : « Não digo que Alif-Lām-Mīm seja uma única letra; Alif é uma letra, Lām é uma letra, Mīm é uma letra. » — Cada letra recitada é considerada meritória.
3 Theodor Nöldeke, Geschichte des Qorāns : Hipótese de antigas marcas ligadas à transmissão manuscrita. — A investigação moderna propôs várias explicações sem chegar a uma conclusão definitiva.
4 Isaías 55,8-9 : « Meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e os vossos caminhos não são os meus caminhos. » — Deus ultrapassa a compreensão humana.
5 Romanos 11,33 : « Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e do conhecimento de Deus! » — A sabedoria divina ultrapassa a inteligência humana.
6 Salmo 119 [118] : salmo alfabético em que cada estrofe segue a ordem das letras do alfabeto hebraico — exemplo do uso simbólico do alfabeto na oração bíblica.
7 Atos 8,30-31 : « Compreendes o que estás a ler? » — A revelação também chama à compreensão.
8 João 1,14 : « E o Verbo fez-se carne. » — Na fé cristã, a Palavra torna-se uma pessoa.