Alcorão – Sura 2 – Versículos 4-5

Sura 2 — Sourate 2 – Al-Baqarah (La Vache)Revelação medinense · 286 versículos

A Surata 2, chamada Al-Baqarah (« A Vaca »), é a mais longa do Alcorão.

Ela constitui um texto fundamental para a organização religiosa, jurídica e comunitária dos crentes.

Revelada majoritariamente em Medina, desenvolve temas centrais como a fé, a Lei, a aliança, a oração, o jejum e a relação com as tradições judaicas e cristãs.

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Surata 2 – Al-Baqarah – « A Vaca » – Versículos 4–5
وَالَّذِينَ يُؤْمِنُونَ بِمَا أُنزِلَ إِلَيْكَ وَمَا أُنزِلَ مِن قَبْلِكَ وَبِالْآخِرَةِ هُمْ يُوقِنُونَ ﴿٤﴾ أُولَٰئِكَ عَلَىٰ هُدًى مِّن رَّبِّهِمْ وَأُولَٰئِكَ هُمُ الْمُفْلِحُونَ ﴿٥﴾
Wa-lladhīna yuʾminūna bi-mā unzila ilayka wa-mā unzila min qablika wa-bi-l-ākhirati hum yūqinūna · ulāʾika ʿalā hudan min rabbihim wa-ulāʾika humu l-mufliḥūn
« E aqueles que creem no que foi revelado a ti
e no que foi revelado antes de ti,
e que têm certeza da vida futura —
esses seguem a orientação do seu Senhor:
eles são os verdadeiramente bem-sucedidos. »
Em uma palavra – O crente acolhe todas as revelações e vive na certeza da vida futura: assim o Corão descreve o caminho do verdadeiro sucesso.

O que o texto diz

Esses dois versículos concluem o retrato do crente iniciado no versículo 2. Depois da fé no invisível, da oração e da esmola (v. 3), aparecem duas características adicionais: acreditar em todas as revelações e ter certeza da vida futura. Juntas, essas cinco características formam o retrato do crente segundo o Corão.

O verbo yūqinūna, no versículo 4, merece atenção. Ele não significa apenas « acreditar », mas « ter certeza ». A fé na vida futura não é uma opinião nem uma esperança incerta: é uma convicção profundamente enraizada. O Corão distingue assim entre a fé comum (īmān) e essa certeza mais profunda (yaqīn), que já não admite dúvida.

O versículo 5 responde a essa descrição com uma dupla promessa. A palavra hudā — orientação, caminho traçado — vem do próprio Allah. E o termo mufliḥūn, frequentemente traduzido como « os bem-aventurados » ou « os prósperos », carrega em árabe a ideia de sucesso completo, de realização duradoura. Não é apenas uma recompensa futura: já descreve uma postura vitoriosa aqui e agora.

O que o Corão diz em outros lugares

A fé nas revelações anteriores é explicitamente exigida em vários trechos do Corão. « Dizei: cremos em Allah e no que nos foi revelado, e no que foi revelado a Abraão, Ismael, Isaac, Jacó e às tribos, e no que Moisés e ʿĪsā (o “Jesus corânico”) receberam » (S. 2,136). A recusa dessa fé ampliada é apresentada até mesmo como um verdadeiro afastamento do caminho (S. 4,150–151).

A certeza da vida futura (ākhira) também atravessa todo o Corão. Sem ela, a moral corânica perderia sua força: é o horizonte do julgamento que dá peso às ações humanas. As suratas de Meca insistem particularmente nesse tema: o juízo final está próximo, a ressurreição é certa e a retribuição é inevitável (S. 75,1–6; S. 82,1–5).

A palavra mufliḥūn aparece igualmente diversas vezes como uma conclusão solene — especialmente ao final de um ensinamento ou de uma lista de qualidades (S. 23,1; S. 3,104). Funciona como um selo: estes são os que realmente tiveram sucesso.

A tensão presente no texto

O versículo 4 pede que se creia « no que foi revelado antes » de Muhammad. Essa formulação é ampla: em outros lugares o Corão menciona explicitamente a Torá (S. 5,44), os Salmos (S. 17,55) e o Evangelho (S. 5,46) como revelações dadas por Allah. O texto corânico reconhece, portanto, esses livros como portadores de uma verdadeira palavra divina. No entanto, o Corão também afirma que essas Escrituras foram alteradas ou deformadas por alguns de seus guardiões (taḥrīf, S. 5,13; S. 2,79). Surge então uma tensão: como acreditar em revelações que ao mesmo tempo são consideradas alteradas?

A tensão torna-se ainda mais clara quando se pergunta como essa fé deve ser vivida. Se os textos bíblicos em circulação já não são confiáveis, o crente não se refere diretamente a eles, mas à imagem que o Corão oferece deles. A fé nas revelações anteriores torna-se então, na prática, uma fé naquilo que o Corão diz sobre essas revelações — e não nos próprios textos. Esse deslocamento é real, e comentadores clássicos como al-Ṭabarī não o ignoram.

Do lado cristão, a questão aparece de outra maneira. As revelações anteriores não são acrescentadas à fé em Cristo: elas encontram nele o seu sentido e o seu cumprimento. Jesus não vem abolir a Lei e os Profetas; ele declara cumpri-los1. Não se trata de acreditar sucessivamente em várias revelações, mas de reconhecer uma única história cujo sentido e culminação se encontram nele.

O que já era conhecido

A ideia de revelações sucessivas dadas a diferentes profetas é anterior ao islã. O judaísmo do Segundo Templo já reconhece uma história da revelação: a Torá dada a Moisés e depois a palavra transmitida pelos profetas. A tradição rabínica desenvolverá posteriormente essa ideia ao falar de uma Torá transmitida de geração em geração, dos profetas aos sábios. O cristianismo fundamenta sua fé nessa mesma continuidade entre os dois Testamentos: o mesmo Deus fala em tempos e modos diversos antes de falar em seu Filho2.

A certeza da vida futura também é uma herança comum. O judaísmo do Segundo Templo, especialmente os fariseus, defendia a ressurreição dos mortos contra os saduceus que a negavam. Jesus se insere nessa tradição e a aprofunda: a vida eterna não é apenas uma promessa futura; ela começa já agora para aquele que crê3.

Quanto à ideia de sucesso ou prosperidade (falāḥ), ela ecoa as Bem-aventuranças. Contudo, as duas perspectivas divergem: o sucesso corânico é o do crente que permanece no caminho correto e merece sua recompensa; a bem-aventurança evangélica surpreende — ela se dirige ao pobre, ao aflito e ao perseguido4. Não é a mesma lógica de felicidade.

O que a história ajuda a compreender

Esses versículos pertencem ao período medinense. Em Medina, Muhammad está em contato direto com importantes comunidades judaicas. A afirmação da fé nas revelações anteriores insere-se nesse contexto: é também um apelo a essas comunidades para reconhecerem no Corão a confirmação daquilo que já haviam recebido. O texto corânico apresenta-se como confirmação das revelações anteriores e convida seus depositários a reconhecer essa nova palavra. A abordagem pretende ser inclusiva.

No entanto, esse período também verá crescer as tensões. As tribos judaicas de Medina não se unirão à nova comunidade. Progressivamente, a definição da qibla (a direção da oração ritual), a mudança do jejum e a acusação de taḥrīf (falsificação) marcarão um distanciamento crescente entre o islã nascente e o judaísmo. Assim, a fórmula inclusiva do versículo 4 será historicamente acompanhada por uma ruptura real.

A interpretação clássica do versículo 5 insiste na dimensão universal do termo mufliḥūn. Al-Ṭabarī sublinha que o sucesso mencionado aqui é total: vale tanto para esta vida quanto para a outra. Não é uma felicidade parcial ou provisória, mas o cumprimento daquilo para o qual o ser humano foi criado — segundo a visão islâmica clássica.

O que esta leitura ilumina

Esses dois versículos descrevem uma fé ao mesmo tempo ampla e precisa: ampla porque pretende abranger todas as revelações dadas antes do Corão; precisa porque está enraizada na certeza do julgamento futuro. É uma fé que mantém unidas a memória e a esperança.

A resposta cristã não rejeita essa abertura — ela a reconhece e a compreende de outra maneira. As revelações anteriores não são, para o cristão, livros separados nos quais se deve acreditar isoladamente: formam uma história contínua que conduz a Cristo e encontra nele o seu sentido. Jesus não pede que se acrescente uma crença a uma lista, mas que se reconheça nele o cumprimento vivo de uma longa promessa. O cumprimento não é um texto a mais: é uma pessoa.

A questão permanece aberta. Se o sucesso do ser humano depende daquilo em que acredita e daquilo que pratica, poderia também depender de alguém que ele encontra — e do que esse encontro faz dele?

O que o texto diz

Esses dois versículos concluem o retrato do crente iniciado no versículo 2. Depois da fé no invisível, da oração e da esmola (v. 3), aparecem duas características adicionais: acreditar em todas as revelações e ter certeza da vida futura. Juntas, essas cinco características formam o retrato do crente segundo o Corão.

O verbo yūqinūna, no versículo 4, merece atenção. Ele não significa apenas « acreditar », mas « ter certeza ». A fé na vida futura não é uma opinião nem uma esperança incerta: é uma convicção profundamente enraizada. O Corão distingue assim entre a fé comum (īmān) e essa certeza mais profunda (yaqīn), que já não admite dúvida.

O versículo 5 responde a essa descrição com uma dupla promessa. A palavra hudā — orientação, caminho traçado — vem do próprio Allah. E o termo mufliḥūn, frequentemente traduzido como « os bem-aventurados » ou « os prósperos », carrega em árabe a ideia de sucesso completo, de realização duradoura. Não é apenas uma recompensa futura: já descreve uma postura vitoriosa aqui e agora.

O que o Corão diz em outros lugares

A fé nas revelações anteriores é explicitamente exigida em vários trechos do Corão. « Dizei: cremos em Allah e no que nos foi revelado, e no que foi revelado a Abraão, Ismael, Isaac, Jacó e às tribos, e no que Moisés e ʿĪsā (o “Jesus corânico”) receberam » (S. 2,136). A recusa dessa fé ampliada é apresentada até mesmo como um verdadeiro afastamento do caminho (S. 4,150–151).

A certeza da vida futura (ākhira) também atravessa todo o Corão. Sem ela, a moral corânica perderia sua força: é o horizonte do julgamento que dá peso às ações humanas. As suratas de Meca insistem particularmente nesse tema: o juízo final está próximo, a ressurreição é certa e a retribuição é inevitável (S. 75,1–6; S. 82,1–5).

A palavra mufliḥūn aparece igualmente diversas vezes como uma conclusão solene — especialmente ao final de um ensinamento ou de uma lista de qualidades (S. 23,1; S. 3,104). Funciona como um selo: estes são os que realmente tiveram sucesso.

A tensão presente no texto

O versículo 4 pede que se creia « no que foi revelado antes » de Muhammad. Essa formulação é ampla: em outros lugares o Corão menciona explicitamente a Torá (S. 5,44), os Salmos (S. 17,55) e o Evangelho (S. 5,46) como revelações dadas por Allah. O texto corânico reconhece, portanto, esses livros como portadores de uma verdadeira palavra divina. No entanto, o Corão também afirma que essas Escrituras foram alteradas ou deformadas por alguns de seus guardiões (taḥrīf, S. 5,13; S. 2,79). Surge então uma tensão: como acreditar em revelações que ao mesmo tempo são consideradas alteradas?

A tensão torna-se ainda mais clara quando se pergunta como essa fé deve ser vivida. Se os textos bíblicos em circulação já não são confiáveis, o crente não se refere diretamente a eles, mas à imagem que o Corão oferece deles. A fé nas revelações anteriores torna-se então, na prática, uma fé naquilo que o Corão diz sobre essas revelações — e não nos próprios textos. Esse deslocamento é real, e comentadores clássicos como al-Ṭabarī não o ignoram.

Do lado cristão, a questão aparece de outra maneira. As revelações anteriores não são acrescentadas à fé em Cristo: elas encontram nele o seu sentido e o seu cumprimento. Jesus não vem abolir a Lei e os Profetas; ele declara cumpri-los1. Não se trata de acreditar sucessivamente em várias revelações, mas de reconhecer uma única história cujo sentido e culminação se encontram nele.

O que já era conhecido

A ideia de revelações sucessivas dadas a diferentes profetas é anterior ao islã. O judaísmo do Segundo Templo já reconhece uma história da revelação: a Torá dada a Moisés e depois a palavra transmitida pelos profetas. A tradição rabínica desenvolverá posteriormente essa ideia ao falar de uma Torá transmitida de geração em geração, dos profetas aos sábios. O cristianismo fundamenta sua fé nessa mesma continuidade entre os dois Testamentos: o mesmo Deus fala em tempos e modos diversos antes de falar em seu Filho2.

A certeza da vida futura também é uma herança comum. O judaísmo do Segundo Templo, especialmente os fariseus, defendia a ressurreição dos mortos contra os saduceus que a negavam. Jesus se insere nessa tradição e a aprofunda: a vida eterna não é apenas uma promessa futura; ela começa já agora para aquele que crê3.

Quanto à ideia de sucesso ou prosperidade (falāḥ), ela ecoa as Bem-aventuranças. Contudo, as duas perspectivas divergem: o sucesso corânico é o do crente que permanece no caminho correto e merece sua recompensa; a bem-aventurança evangélica surpreende — ela se dirige ao pobre, ao aflito e ao perseguido4. Não é a mesma lógica de felicidade.

O que a história ajuda a compreender

Esses versículos pertencem ao período medinense. Em Medina, Muhammad está em contato direto com importantes comunidades judaicas. A afirmação da fé nas revelações anteriores insere-se nesse contexto: é também um apelo a essas comunidades para reconhecerem no Corão a confirmação daquilo que já haviam recebido. O texto corânico apresenta-se como confirmação das revelações anteriores e convida seus depositários a reconhecer essa nova palavra. A abordagem pretende ser inclusiva.

No entanto, esse período também verá crescer as tensões. As tribos judaicas de Medina não se unirão à nova comunidade. Progressivamente, a definição da qibla (a direção da oração ritual), a mudança do jejum e a acusação de taḥrīf (falsificação) marcarão um distanciamento crescente entre o islã nascente e o judaísmo. Assim, a fórmula inclusiva do versículo 4 será historicamente acompanhada por uma ruptura real.

A interpretação clássica do versículo 5 insiste na dimensão universal do termo mufliḥūn. Al-Ṭabarī sublinha que o sucesso mencionado aqui é total: vale tanto para esta vida quanto para a outra. Não é uma felicidade parcial ou provisória, mas o cumprimento daquilo para o qual o ser humano foi criado — segundo a visão islâmica clássica.

O que esta leitura ilumina

Esses dois versículos descrevem uma fé ao mesmo tempo ampla e precisa: ampla porque pretende abranger todas as revelações dadas antes do Corão; precisa porque está enraizada na certeza do julgamento futuro. É uma fé que mantém unidas a memória e a esperança.

A resposta cristã não rejeita essa abertura — ela a reconhece e a compreende de outra maneira. As revelações anteriores não são, para o cristão, livros separados nos quais se deve acreditar isoladamente: formam uma história contínua que conduz a Cristo e encontra nele o seu sentido. Jesus não pede que se acrescente uma crença a uma lista, mas que se reconheça nele o cumprimento vivo de uma longa promessa. O cumprimento não é um texto a mais: é uma pessoa.

A questão permanece aberta. Se o sucesso do ser humano depende daquilo em que acredita e daquilo que pratica, poderia também depender de alguém que ele encontra — e do que esse encontro faz dele?

Referências

1 Mateus 5,17 : « Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas: não vim abolir, mas cumprir. »

2 Hebreus 1,1–2 : « Antigamente Deus falou muitas vezes e de muitas maneiras aos nossos pais pelos profetas; nestes últimos tempos falou-nos por meio de um Filho. »

3 João 5,24 : « Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna. »

4 Mateus 5,3–5 : « Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus… Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. »